Inutilidade...




Às vezes o que me dói
É a inutilidade que você me dá
Não por maldade
Mas é por impulso
Você não enxerga a minha necessidade
De te dar algo que você não tem
Mas você tem tudo, em teoria
Eu preciso mais de você
Do que você de mim
E sinceramente
Não teria como equilibrar?
Me deixe te comprar um café
Um pedaço de bolo
Ou pagar nosso almoço de domingo
Me deixe cuidar da sua febre
E te fazer massagem
Me deixe aparecer no seu trabalho
Com seu lanche preferido
Me deixe ser sua mulher
E não sua menina
Me deixe ser útil na sua vida.

(A Sonhadora)

Choro...


Eu não choro por aquele primeiro fragmento de briga
Sobre aquele pequeno motivo...
Eu choro por tudo que vem na minha cabeça de uma vez só
Choro pelo amor que talvez tenha diminuído
Por isso você fez o que fez
Choro porque as coisas podem piorar cada dia mais
E você pode fazer muito mais
Choro por tudo o que minha mente vê lá na frente, no futuro
Coisas que não passam pela sua cabeça
Então não diga que estou chorando por besteiras, por algo de nada
Você não está aqui dentro para saber o que há
E mesmo que eu fale, você não entenderia.

(A Sonhadora)

Solidão interna...


Sentada na varanda
Olhando para esse céu sem estrelas
Vestida estava eu
De preto negro
Do pescoço às coxas
Sentia frio
Muito frio
Mais ainda pelas lágrimas
Que rolavam dos meus olhos até meus pés
Que mesmo não descalços, sentiam frio.
Frio esse que me acolheu naquela noite tão dolorida.
Na minha cabeça só tinha um pedido:
"Não me deixe sofrer."
Não sei para quem pedia
Mas pedia
E pedia com todas as forças
Que ainda restavam naquela noite
Queria desistir
Pensei em desistir
Fiz aquele trama dos filmes na minha cabeça
Onde jogo o anel em você e saio chorando porta a fora
Mas não podia, eu, sair
Eatava ali até a manhã do dia seguinte
O máximo que iria era até a sala de estar.
E, sinceramente, eu não queria teatrar nenhum dos dramas das novelas
Só queria seu abraço quente
Na mesma cama em que acordamos naquela manhã
O abraço que me aqueceria e faria passar todas as dores
Dores que iam das lágrimas que saíam dos meus olhos
Ao meu estômago embrulhado
Mas você não o fez
E me senti sozinha a noite toda
Mas não desisti.
Ainda estou aqui tentando esquecer o momento mais solitário que tive em anos
E eu vou "esquecer"
Mas lembre-se sempre
Que isso nunca mais sairá do meu coração frágil.
Não é rancor, meu amor.
É dor.

(A Sonhadora)

Padrão?

Queria conseguir acabar com esse padrão
Onde as mulheres mais maduras e mais responsáveis
Andam de salto alto e roupa social
Onde, as mesmas mulheres sensatas,
Não usam piercing ou cabelos de cores fora do "padrão"
Queria que me mostrassem
Onde consta na lei que meu cabelo afro colorido raspado
Interfere na minha inteligência e no meu caráter.
Onde a minha calça rasgada e minha blusa de banda
Mudam a minha maturidade
Onde meu braço rabiscado de tatuagem
Pode piorar meu desempenho no trabalho ou me tornar menos capaz
Me mostre você, que foi moldado por essa sociedade,
Se todas as pessoas do mundo são “perfeitas” como pedem
Se o cara mais inteligente do mundo é revestido de pudor
E se em todo o seu corpo não há um resquício de tinta de tatuagem.
Quero que me mostrem onde me obrigam a ser
Um padrão
Um ser comum
A ser esbelta
A vestir 36.
Me mostre onde meu cabelo e roupas diferentes
Me torna menos sério e menos respeitoso
Quero que me mostrem onde está o meu atestado de ignorância
Por conta do meu cabelo azul.

(A Sonhadora)

Mudar...

Hoje estava lembrando do dia em que nos conhecemos
Do nosso primeiro gole de açaí
Lembrei também da pequena conversa na escada do prédio
Eu mal tinha olhado na sua cara
E não sei porquê falei com você no dia seguinte
Mas no final eu soube, não é?
Você veio para quebrar barreiras
Me ajudar a descobrir o que sou
Quem sou...
Mas você não pôde permanecer com a pessoa que ajudou a mudar
Você me libertou
E eu voei
Voei, porque você fez por onde.
Hoje sinto sua falta, às vezes, ao vagar pelos pensamentos.
Queria saber como está
Mas não quero te ver.
Ainda assim rezo para que esteja bem.

(A Sonhadora)

Amor impróprio...


Por estar cega de dor
Desejou amor no seu tempo
Suplicou pelo calor
E teve.
Teve mas sofreu da mesma forma.
Pulou em vão
Caiu e não era macio
Era duro e doía
Doía porque foi no seu tempo
No tempo que queria
O seu agora.
O seu hoje.
Nunca soube esperar o amanhã
Nunca aguentou
Não sabe o que é a solidão
Não se ama
Portanto, não sabe amar.
Não sabe o verdadeiro calor
Não sabe acalmar
Está onde está
Pela própria culpa
Pelo próprio orgulho
Nunca soube o que quis
Sempre indeciso
Sempre na lua
Sempre nos sonhos.
Sonhos irreais
Sonhos que nunca iriam acontecer
Ainda assim, quis permanecer no seu próprio mundo
Sabia que não se encaixava naquilo
Era daquela maneira
Daquela forma
Daquele jeito
E não mudaria.
Amar era seu maior dom
Não se amar, era seu carma
Agora faz chover diariamente
Ao amanhecer e ao anoitecer
E se pergunta
O que houve com todo o amor que deu.
 
(A Sonhadora)
 

Persiste...

“Quando eu parava pra falar de você para as pessoas
O porquê da questão era sempre o mesmo
Nunca parei pra analisar melhor a situação
Saía falando e acabou.
Hoje, quando alguém me pergunta de você,
Eu fico calada.
Não sei nem ao menos o que pensar
Reflito sobre todos os fatos
Sobre tudo o que ocorreu
Tudo o que me fez ir
E chego a conclusão de que
Eu não tinha que ir
Fui porque quis
Porque não aguentei esse instante de infelicidade e amargura
Porque fui fraca
E não aguentei tanto peso em mim
Tanta responsabilidade
Fui porque simplesmente desisti de lutar.
Chegando nisso, me senti deprimida
Porque senti uma falta
Uma falta que ainda dói no peito
Ainda assim , na minha cabeça
Persiste o fato de que
Não era amor.
 
(A Sonhadora)