Vivaz...


Sentei na grama fria, fechei o olhos e lembrei dos nossos quinze dias de férias nessa cidade.
Era um começo de ano bom
Estávamos felizes, os dois.
E se não me engano, não teve um dia que eu não tentasse ser uma pessoa melhor para você.
Andamos muito de bicicleta nesse parque e quase caímos diversas vezes tentando andar de mãos dadas.
Não há idade para amar assim, e amávamos tudo de bom que tínhamos um pelo o outro.
Hoje eu sento aqui, olho para os casais e choro por dentro
Sem saber como posso estar tão só, pensar em você e não ter forças para ir ao teu encontro.
Eu te matei nos meus pensamentos,
Mas senti, inesperadamente, o quão vivo você está em meu coração.

( A Sonhadora)

Dono do meu mundo...



Estou aqui mais uma vez, sozinha
Caminhando onde nós dois passeamos de mãos dadas naquela semana de carnaval
Eu estava com um conjuntinho que você me deu e você com a bermuda que te fiz comprar
Quem passeia de calça social pelo calor dessa cidade?
Você me olhava com ternura, amor e admiração.
Eu sorria.
Estava quente e meu cabelo azul brilhava com o toque dos raios do sol enquanto seus rosto era pura oleosidade e suor.
Cada caminhar divertido, era um sorriso.
Você era meu maior fã
E eu era sua estrela de cinema
Posta em um pedestal, pronta para ser mais que adorada.
Você me amava, eu sabia disso.
E caminhar por aqui agora, sozinha, sem ninguém para me segurar quando eu tropeçar em uma pedra, me faz perceber que realmente não há um amor igual ao nosso.
Estar aqui e enxergar nossas pegadas em cada canto, nossos beijos no mirante de pedra e nossos carinhos em cada pausa para descansar, me dói.
Mas estou aqui para sentir essa dor ao olhar para cada flor que olhamos juntos e vivenciar todos os aromas respirados por nós dois
Sentar naquele banco embaixo de uma árvore gigantesca e lembrar de cada gota de água que bebemos
Sorrir em meio as lágrimas...
Afinal, as lembranças são boas.
Boas o suficiente para apertar meu peito reafirmando que eu não devia estar aqui sozinha e nem lamentar todos esses pensamentos
Confesso que na noite daquele dia eu sabia que você iria me amar para sempre e eu prometi tentar corresponder a altura.
Seu amor era grande demais para competir.
É engraçado estar caminhando aqui e lembrar claramente de cada momento com você.
Seu aniversário.
As viagens.
Os jantares.
Cada lugar preferido que você me apresentou.
Eu sentia o quão era especial.
Mas estou aqui sem você pra rir dos meus rodopios
Para ficar feliz com a minha vontade de comer
Para reclamar da mania das pessoas de encostar em você nas filas.
Pra esbravejar sobre o meu choro ou rir com desdém da minha manha.
Eu era uma criança, meu amor
E você o dono do mundo.

(A Sonhadora)

É só uma fase?


- É só uma fase.
Eu disse à mim mesma e tentei erguer a cabeça mais uma vez, com o intuito de esquecer todos esses sentimentos que surgiram como o vento de outono numa manhã quente.
Do nada.
Acordei e tive aquela sensação de solidão.
Era a segunda vez naquela semana que isso acontecia.
“Maldita ansiedade” Pensei.
E praguejei até chegar no trabalho e me distrair com as mesmas pessoas das oito horas por dia que me faziam bem.
Na volta sempre o mesmo trajeto, sempre o mesmo horário, sempre essa monotonia.
E sem livros para ler, sigo vendo séries de assassinato. Não consigo mudar esse gênero.
Às vezes penso que poderia virar uma assassina qualquer dia.
Talvez até de mim mesma.
Mas amanheci mais uma vez com o desespero preso na garganta
A falta de sono nítida no rosto
O cabelo sem pintar
A unha descascada, quebradiça...
As roupas sem passar
Vesti as mesmas, como se não fosse receber ninguém, nem ver ou falar.
Não demorei a perceber que a vontade de viver desapareceu.
Como pude regredir dessa forma?
Eu estava feliz.
Pelo menos era isso que aparentava na minha cabeça.
Me pergunto novamente:
- Como vim parar aqui?
Como deixei que toda essa tristeza invadisse meu ser?
Foram-se quatro meses, o ano virou, e eu caí de paraquedas naquele maldito dia infeliz.
Não chorei ao escrever, mas os arrepios da vasta verdade passaram pelos meus poros reafirmando a veracidade dessas palavras.
Talvez não tenha deixado de te amar
Talvez eu tenha apenas tentado te tirar da minha vida a força
O que, aparentemente, não deu muito certo.
Estou perdendo o sono, meu amor.
E isto está me sufocando.
Como correr 500 quilômetros até você só para dizer que a saudade me espancou essa noite?

(A Sonhadora)

Picanha de domingo...



Respirei fundo e senti o cheiro da manhã de domingo
Onde, às onze horas da manhã, já sabíamos que sua mãe estava fazendo o almoço
O mesmo almoço de todos os domingos
Sempre como prometido.
Picanha ao forno ao ponto e duas fatias bem passadas para mim
Confesso que eu era feliz em todas essas manhãs
E queria entender como cheguei aqui
Já é o quarto texto que te escrevo essa semana
E preciso reafirmar: sinto sua falta
E deixar bem claro que não, eu não vou atrás de você
Não te ligarei
Nem baterei à sua porta.
Não perguntarei aos outros de ti e nem ao menos ficarei me perguntando.
Mas não prometo não chorar
Ou não pensar em cada momento feliz
Estou aqui agora
Com os pensamentos bagunçados
Sentindo que o vento irá me arrastar a qualquer momento
Já que me perdi em toda a nuvem turbulenta que causei
Não é arrependimento
É simplesmente a saudade que neguei todos esses meses
Por forçar uma felicidade que nunca existiu.
Ainda assim, gosto de sentir o cheiro daquela carne de domingo
E lembrar de todos os bons momentos
Mesmo que doa
E não sei como parar de doer.

(A Sonhadora)

Meu mar...



Vou olhar nos seus olhos mais uma vez
E dizer que não fiquei porque faltou amor
Fui por todo o barulho do mar revolto
E por todas as ondas que me afogaram
Que me fizeram perder o ar, a visão
Me causaram câimbra...
Me derrubaram
Mesmo que minha base fosse você.
Mas foi trágico a forma como a areia virou cimento
O sal ardeu meus olhos
O frio congelou minha alma.
Foi triste ao ir embora da praia
Que me acalentava todas as noites
Que me ajudava a resolver os problemas
Que sabia ser o brilho do meu olhar.
Foi trágico como todo esse amor
Virou um mar poluído
Onde quase nos afoguei.

(A Sonhadora)

Descreva saudade...



Andei com tantos todos esses meses
Odiei você todos os dias
Não quis derramar lágrimas por ti
Nem lembrar das coisas boas
Apaguei as fotos
Desfiz lembranças
Chorei sorrisos passados
Amei toda essa minha dor.
Tinha que me apegar a ela
Pois eu me fui
Não voltei.
E percebi que
Meus sorrisos não reluzem ouro
Meus olhos não enxergam amor
Minha alma não abraço o outro
Minhas mãos não encaixam de novo.
É como se meu abraço fosse seu
E ficou aí
Porque aqui
Tudo que eu toco é frio
E todo o sentimento é morto.


( A Sonhadora)

Caixa de pandora?....


Pela primeira vez na vida estou em um impasse de algo que nunca achei que aconteceria
Tantas pessoas nesse mundo por aí, e sempre vou achar que estou com a última bolacha do pacote.
Sei o motivo desse achismo.
Medo.
A solidão é muito dolorida.
Dói não ter alguém que te acolha, que seja sua base, que saiba como te melhorar em um momento de dor.
Estou sem uma base a um tempo e quero me permitir viver sem nenhuma por mais alguns momentos
Mais por falta de escolhas do que por falta de vontade
É engraçado quando sabemos o que queremos e o que não queremos. 
O ruim é esconder essa certeza de algo que,
obviamente, está ali bem nítido na nossa cara.
O amor, meus amigos, é a caixa de pandora do ser humano.
Nós não queremos abri-lo, mas o fazemos e não sabemos como usar, o que fazer, como manusear, como dar,
doar ou vender.
Ainda assim o deixamos aberto e tudo de ruim que nos é dado mistura-se com tudo de bom que o amor tem a nos
oferecer.
O ser humano é uma praga
Mas amamos as pessoas e criamos laços
Choramos, rimos, sofremos, doemos e fazemos doer.
Nem sempre por maldade, às vezes porque estamos apenas cegos com esse amor doentio que criamos.
Mais uma vez juntei meu amor com a minha dor e criei uma bola de neve que está prestes a me esmagar
Não pedi por ajuda porque sei como não morrer estraçalhada por ela, mesmo que diversas vezes penso em não me esforçar tanto
Afinal, está tudo tão dolorido que é difícil sustentar.
Querem passarinhos em gaiolas e voando
Quem está preso não canta tão bem quanto quem está livre.
O amor dói, amigos. 
Dói e não sabemos como lidar.
A sensação de morte acaba sendo nossa melhor amiga e nos apegamos a ela porque a carência é nossa inimiga mais comum
Ao mesmo tempo que abraçamos nosso inimigo, queremos ser livres
E isso é tão doloroso...
A questão, afinal, do ponto final desse texto, é chegar onde ninguém nunca chega.
O que fazer para não pôr sua felicidade como obrigação do outro?
Como ser autossuficiente?
Como não tomar o amor como algo possessivo?
Não cheguei a nenhuma conclusão, apenas observei que o amor criado pelo ser humano é uma mentira
E em todos esses anos de amor, nunca imaginei que chegaria nesse estágio.
Não acreditava como alguém pode se fechar para algo tão lindo
Mas descobri que a beleza não é nada
Nem mesmo para o amor humano.


(A Sonhadora)