Choro eterno...



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Ela se levantou e percebeu mais uma vez que ele não estava na cama, ainda assim o seu lado ainda estava bagunçado.
Já tinha se passado duas semanas e ela não entendia como esse Deus, que sabia tudo que iria acontecer na vida de cada um, poderia ter tirado do seu caminho alguém que amava tanto.
A morte é a única certeza sim, mas é a pior dor do mundo para as pessoas.
Caminhou até o banheiro, se olhou no espelho e viu as olheiras que a acompanhava, seu cabelo ressecado e seu estado deplorável.
Respirou fundo, e acabou percebendo que cometeu o mesmo erro, pois sentiu o cheiro dele mais uma vez e em mais uma manhã as lágrimas inundaram seu rosto, a chuva inundou sua vida e a escuridão cobriu sua alma. Olhou para o lado e viu tudo que ele deixara no mesmo lugar antes daquela noite fatídica. Seu perfume pela metade, sua escova de dentes desgastada e seu barbeador. Não entendia como ainda deixou tudo ali. Talvez quisesse permanecer com esse sofrimento, achando que estar feliz seria audácia demais.
Desceu as escadas sem acender a luz, não verificou se a porta estava trancada, não sentia fome, então não fez café da manhã. Sentou em sua cadeira de sempre, olhou para a TV desligada e chorou mais um dia inteiro, sem pensar no que faria depois.

(A Sonhadora)

Vivaz...


Sentei na grama fria, fechei o olhos e lembrei dos nossos quinze dias de férias nessa cidade.
Era um começo de ano bom
Estávamos felizes, os dois.
E se não me engano, não teve um dia que eu não tentasse ser uma pessoa melhor para você.
Andamos muito de bicicleta nesse parque e quase caímos diversas vezes tentando andar de mãos dadas.
Não há idade para amar assim, e amávamos tudo de bom que tínhamos um pelo o outro.
Hoje eu sento aqui, olho para os casais e choro por dentro
Sem saber como posso estar tão só, pensar em você e não ter forças para ir ao teu encontro.
Eu te matei nos meus pensamentos,
Mas senti, inesperadamente, o quão vivo você está em meu coração.

( A Sonhadora)

Dono do meu mundo...



Estou aqui mais uma vez, sozinha
Caminhando onde nós dois passeamos de mãos dadas naquela semana de carnaval
Eu estava com um conjuntinho que você me deu e você com a bermuda que te fiz comprar
Quem passeia de calça social pelo calor dessa cidade?
Você me olhava com ternura, amor e admiração.
Eu sorria.
Estava quente e meu cabelo azul brilhava com o toque dos raios do sol enquanto seus rosto era pura oleosidade e suor.
Cada caminhar divertido, era um sorriso.
Você era meu maior fã
E eu era sua estrela de cinema
Posta em um pedestal, pronta para ser mais que adorada.
Você me amava, eu sabia disso.
E caminhar por aqui agora, sozinha, sem ninguém para me segurar quando eu tropeçar em uma pedra, me faz perceber que realmente não há um amor igual ao nosso.
Estar aqui e enxergar nossas pegadas em cada canto, nossos beijos no mirante de pedra e nossos carinhos em cada pausa para descansar, me dói.
Mas estou aqui para sentir essa dor ao olhar para cada flor que olhamos juntos e vivenciar todos os aromas respirados por nós dois
Sentar naquele banco embaixo de uma árvore gigantesca e lembrar de cada gota de água que bebemos
Sorrir em meio as lágrimas...
Afinal, as lembranças são boas.
Boas o suficiente para apertar meu peito reafirmando que eu não devia estar aqui sozinha e nem lamentar todos esses pensamentos
Confesso que na noite daquele dia eu sabia que você iria me amar para sempre e eu prometi tentar corresponder a altura.
Seu amor era grande demais para competir.
É engraçado estar caminhando aqui e lembrar claramente de cada momento com você.
Seu aniversário.
As viagens.
Os jantares.
Cada lugar preferido que você me apresentou.
Eu sentia o quão era especial.
Mas estou aqui sem você pra rir dos meus rodopios
Para ficar feliz com a minha vontade de comer
Para reclamar da mania das pessoas de encostar em você nas filas.
Pra esbravejar sobre o meu choro ou rir com desdém da minha manha.
Eu era uma criança, meu amor
E você o dono do mundo.

(A Sonhadora)

É só uma fase?


- É só uma fase.
Eu disse à mim mesma e tentei erguer a cabeça mais uma vez, com o intuito de esquecer todos esses sentimentos que surgiram como o vento de outono numa manhã quente.
Do nada.
Acordei e tive aquela sensação de solidão.
Era a segunda vez naquela semana que isso acontecia.
“Maldita ansiedade” Pensei.
E praguejei até chegar no trabalho e me distrair com as mesmas pessoas das oito horas por dia que me faziam bem.
Na volta sempre o mesmo trajeto, sempre o mesmo horário, sempre essa monotonia.
E sem livros para ler, sigo vendo séries de assassinato. Não consigo mudar esse gênero.
Às vezes penso que poderia virar uma assassina qualquer dia.
Talvez até de mim mesma.
Mas amanheci mais uma vez com o desespero preso na garganta
A falta de sono nítida no rosto
O cabelo sem pintar
A unha descascada, quebradiça...
As roupas sem passar
Vesti as mesmas, como se não fosse receber ninguém, nem ver ou falar.
Não demorei a perceber que a vontade de viver desapareceu.
Como pude regredir dessa forma?
Eu estava feliz.
Pelo menos era isso que aparentava na minha cabeça.
Me pergunto novamente:
- Como vim parar aqui?
Como deixei que toda essa tristeza invadisse meu ser?
Foram-se quatro meses, o ano virou, e eu caí de paraquedas naquele maldito dia infeliz.
Não chorei ao escrever, mas os arrepios da vasta verdade passaram pelos meus poros reafirmando a veracidade dessas palavras.
Talvez não tenha deixado de te amar
Talvez eu tenha apenas tentado te tirar da minha vida a força
O que, aparentemente, não deu muito certo.
Estou perdendo o sono, meu amor.
E isto está me sufocando.
Como correr 500 quilômetros até você só para dizer que a saudade me espancou essa noite?

(A Sonhadora)

Picanha de domingo...



Respirei fundo e senti o cheiro da manhã de domingo
Onde, às onze horas da manhã, já sabíamos que sua mãe estava fazendo o almoço
O mesmo almoço de todos os domingos
Sempre como prometido.
Picanha ao forno ao ponto e duas fatias bem passadas para mim
Confesso que eu era feliz em todas essas manhãs
E queria entender como cheguei aqui
Já é o quarto texto que te escrevo essa semana
E preciso reafirmar: sinto sua falta
E deixar bem claro que não, eu não vou atrás de você
Não te ligarei
Nem baterei à sua porta.
Não perguntarei aos outros de ti e nem ao menos ficarei me perguntando.
Mas não prometo não chorar
Ou não pensar em cada momento feliz
Estou aqui agora
Com os pensamentos bagunçados
Sentindo que o vento irá me arrastar a qualquer momento
Já que me perdi em toda a nuvem turbulenta que causei
Não é arrependimento
É simplesmente a saudade que neguei todos esses meses
Por forçar uma felicidade que nunca existiu.
Ainda assim, gosto de sentir o cheiro daquela carne de domingo
E lembrar de todos os bons momentos
Mesmo que doa
E não sei como parar de doer.

(A Sonhadora)