Mas era amor?


Já se foram três semanas e hoje vim pensando que deveria estar com a mala pronta e com a ansiedade batendo no peito para voar e te ver.
A ansiedade está aqui, mas é porque chegou esse hoje e eu não vou fazer aquela ponte aérea, nem dessa vez e nem nas próximas. Não mais entrarei em um avião com o objetivo de ir ao teu encontro.
  Pensar nisso fez com que meus olhos se enchessem de lágrimas. Dei um suspiro de cansaço e dor. Eu realmente queria te ver, te abraçar e sentir seu calor nessa cidade gelada onde você se encontra.
  Respirei fundo e engoli o choro de criança com fome que vinha estalando na garganta. Não posso mais derramar lágrimas para você, mesmo que a saudade martele forte aqui dentro.
O amor é meio clichê, né. Você fica repetindo frases que todo mundo fala ou já falou, mas é assim, se não fosse clichê não seria verdadeiro.
  É incrível como tudo me lembra você, como quando olhei para o livro e li uma frase que falava sobre nossa entradinha preferida nos restaurantes italianos. Como penso em comida japonesa e lembro que você insistiu até eu gostar. Como quando penso em ir naquele restaurante onde tem aquelas coxinhas apimentadas deliciosas que amamos, mas começo a lembrar do dia em que estávamos nele e você me fez chorar tanto por algo tão banal.
  Isso me fez pensar no quanto fui boba e nunca consegui elevar a voz com você, mesmo que minha alma gritasse dentro de mim que você estava errado e que não deveria me tratar daquele jeito.
  Mas era amor?
Era pelo fato de você ter largado o cigarro porque eu não suportava, e de como tatuou nas costelas a data do meu nascimento?
Era amor quando você cuidava de mim nos meus momentos de doença ou com as dores de velha que eu vivia sentindo? Era amor a sua falta de paciência com a minha dificuldade em explicar as coisas? Era amor o medo implícito que você me causava? Era?
  Mas hoje deveria ter sido um dia feliz.
Mas decidi que não daria mais pra ser feliz desse jeito. Desisti de tentar. Como iria viver com o orgulho enrustido em você?
  A distração que tenho me deixou a sós comigo mesma, com o intuito de me fazer entender que preciso estar sozinha para me amar primeiro, já que em você eu era segundo e terceiro. Mas me pego vendo nossas fotos no celular que ainda não apaguei, e não porque as quero comigo, mas porque não consigo te apagar da minha alma.
Uma parte de mim quer voltar e a outra quer que continue do jeito que está. Mesmo sofrendo, sei que isso não vai durar para sempre.
Nada é feito para o sempre. Tudo tem um fim e tivemos o nosso, mesmo que eu nunca tenha acreditado que isso fosse acontecer.
Aqui estamos nós, a oito horas de distância.
A três semanas sem amor.
A quilômetros de dor.

(A Sonhadora)

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